domingo, janeiro 14, 2007

padre Mário Oliveira: «São de desastre estes dias de treva as imagens da Igreja nos telejornais»

Deveriam ser boa notícia os rostos e as vozes da Igreja católica que aparece nos meios de comunicação social, mas duma maneira geral não são. Nem nos conteúdos, nem nas imagens visuais e sonoras através das quais os conteúdos são veiculados para as populações. Por exemplo, sempre que reúnem em Fátima (ultimamente, está a suceder com muita frequência), os Bispos católicos portugueses deixam-se filmar para os telejornais e até há um deles que faz de porta-voz de todos. O facto em si só merece aplausos. Mas a imagem que, depois, passa e que fala para as pessoas, ateus e agnósticos incluídos, é geralmente um desastre! Mostram um conjunto só de homens. Nenhumas mulheres. Homens, em geral, misóginos e de idade avançada. Em redor duma mesa supostamente de trabalho, todos sentados e justapostos, sem qualquer sinal de comunhão entre si. De aspecto sisudo. Olhos no chão ou nos papéis. Herméticos. Solitários. O negro e o cinzento são as cores com que habitualmente se apresentam vestidos. O que, só por si, é deprimente, para eles mesmos e, sobretudo, para quem os vê na televisão. Não aparecem como seres humanos libertos para a liberdade nem psiquicamente saudáveis. Podem ser, e serão, certamente, mas não aparecem como tais. Aparecem como meros funcionários de cúpula duma instituição, no caso, a instituição eclesiástica católica romana, com tudo de quartel-general eclesiástico, moralista e canónico. Não se vêem nessas imagens cores alegres e vivas a vestir os seus corpos. Todos vestem fatos negros ou acizentados equiparados a fardas. E com aquele horrível colarinho branco a apertar-lhes o pescoço, como se todos eles sofressem da coluna e fossem obrigados a ter de andar com aquele objecto todos os dias, faça calor ou faça frio. Eu sei, todas/todos sabemos que os bispos são seres humanos, mas a verdade é que nem parecem.

Quem os vê assim, não diz que são livres, nem sequer no acto de vestir, quanto mais no acto de pensar e de dizer/viver em sociedade. Um simples ser humano não anda fardado, a não ser quando está a fazer um determinado papel que não é seu, de ser humano. A farda esconde sempre o ser humano e revela o funcionário institucional. Mas os bispos católicos portugueses não vestem como seres humanos. Sentem-se obrigados a andar permanentemente fardados, não vá o diabo tecê-las e eles perderem de repente a compostura e passarem a comportar-se como seres humanos em sociedade, com afectos e tudo. E depois? Pelos vistos, seria um perigo, no entender da instituição que os bispos representam e que os obriga – e eles aceitam!... – a vestir assim. Por mim, sinto grande compaixão pelos nossos bispos. São os meus irmãos bispos, mas nenhum deles mostra ser capaz de se comportar como tal e a prova é que nunca nenhum deles tomou a liberdade, por exemplo, de me visitar, de me contestar, de me falar, muito menos, de se deixar interpelar pelo meu viver e pelo meu dizer em Igreja. Se eu me dirijo a eles, por ocasião de alguma actividade pública, eles correspondem no mínimo dos mínimos, sempre a medo e sem o à vontade que a fraternidade e a liberdade sempre dão à saudável manifestação dos nossos sentimentos. São funcionários eclesiásticos de proa, mas muito infelizes, os meus irmãos bispos. Todos sempre assim tão alinhados, tão iguais, tão rebanho, tão unânimes, tão sem mijar fora do testo. Parece que foram feitos num molde, numa forma, num pronto-a-vestir.

O próprio porta-voz oficial que, pessoalmente, conheço muito bem e que era meu amigo, antes de ser ordenado bispo (digo “era”, não digo é, porque agora já não sei se é, uma vez que, quando algum padre é ordenado bispo católico logo entra naquela forma e nem amigo sabe continuar a ser dos seus amigos, não vá perder autoridade episcopal!...), sempre foi um homem cordial e simpático, bem relacionado e espiritualmente fecundo. Pois bem, desde que foi ordenado bispo e passou a exercer funções no Patriarcado de Lisboa e de porta-voz da CEP, parece ter sofrido uma profunda mutação, a julgar pelas imagens – e é só a partir delas que me pronuncio, evidentemente – que dele nos chegam pelos telejornais. Apresenta-se sistematicamente com aquele ar de gestor de grande empresa, com uns tiques de superioridade moral e de cinismo (que ele me perdoe, mas é o que as imagens mostram, para tristeza minha), como quem fala para analfabetos na matéria em questão. Não se nota na sua postura uma relação afectiva, cordial, saudável, fraternal. É uma postura própria de quem se impõe, de quem pensa que está em presença do inimigo, por isso, de pé atrás, desconfiado, à defesa. As palavras não lhe saem com a simplicidade e a naturalidade com que a água sai da respectiva fonte.

Quem o vê e ouve em casa, durante os telejornais, fica sempre desconfortado. O que, objectivamente, perfaz um tremendo desastre comunicativo, porque, assim, não consegue persuadir, convencer, muito menos “agarrar-nos” para as posições que tenta defender/impor, mais do que propor. Pelo contrário, o que consegue é suscitar nos telespectadores que não frequentam as catedrais nem as missas dos domingos sentimentos de distanciamento da Igreja católica e até de rejeição. Os seres humanos, ao jeito da Liberdade e, por isso, ao jeito de Jesus, o de Nazaré, não são assim como ele se apresenta. Assim, são os homens do Poder, do Moralismo, da Lei, do Código de Direito Canónico, do Catecismo da Igreja católica, da Ordem, do Dogmático, do Autoritário, do Sem-Afecto.

Mas, senhores bispos, as Igrejas existem na História para, quais parteiras, ajudarem a tornar mais humanas as pessoas e as sociedades. Como pode então a Igreja católica que está em Portugal realizar esta sua missão evangélica, se os que se têm na conta de seus chefes ou líderes maiores são assim tão pouco humanos na vida de todos os dias e na relação uns com os outros e com os respectivos fiéis, apesar de liturgicamente os chamarem por irmãs, irmãos?

Mas o mais dramático em tudo isto é que continua a ser verdade, também hoje, que uma imagem vale mais do que mil palavras. Por isso, melhor seria que não houvesse imagens dos bispos católicos portugueses nos telejornais. Mas o nosso é o tempo das imagens. Não aparecer é (quase) não existir. Mas aparecer como os bispos católicos portugueses estão a aparecer é um desastre. Porque, em lugar de serem sacramento duma Igreja humana e sororal, os bispos estão a ser anti-sacramentos da Igreja e de Deus, o de Jesus. Quanto mais aparecerem assim, mais a Igreja católica perderá credibilidade. Esta será uma das razões e das mais decisivas para que as novas gerações já estejam a crescer fora da Igreja católica. Porque uma Igreja necrófila, que tem medo da vida e da alegria, que cultiva o Moralismo em lugar da Liberdade responsável, o Dogmatismo em lugar da Proposta, e a Religião em lugar de práticas políticas libertadoras e solidárias, nem para idosos serve, quanto mais para as novas gerações. Mas é esta imagem de Igreja que os telejornais fazem entrar nas casas das pessoas, quando dão notícia da Conferência Episcopal Portuguesa reunida em Fátima!... Escrevo-o aqui, não como quem se congratula com o facto, mas como quem alerta e pede que ousemos ser Igreja de outro jeito, o jeito jesuânico que tem tudo a ver com uma Igreja de rosto humano, vivo, alegre, festivo, solidário, maiêutico.

É assim a imagem da Igreja que dão os nossos bispos, quando aparecem nos telejornais. E como é a imagem de Igreja que dão os leigos, elas e eles? Desenganem-se, se pensam que é melhor. Habitualmente, a imagem que nos chega pelos telejornais é pura e simplesmente a da sua não-existência. Nos telejornais, dizer Igreja ainda continua a ser dizer bispos. E alguns clérigos, poucos, no estilo do Padre Borga, nas manhãs da Praça da Alegria, demasiado eclesiásticos e clericais. Porém, nestes últimos dias que são já cada vez mais de campanha para o referendo à lei de despenalização do aborto, a Igreja de leigos, mais de leigas do que de leigos, está a chegar mais a nossas casas através dos telejornais e do som das rádios. É um dado novo. Alegrar-me-ia, se fosse o habitual e tivesse conteúdos outros que não os conteúdos agressivamente moralistas destes dias. Assim, não me alegro, porque sei que é só nestes dias de campanha. E muito menos me posso alegrar com os conteúdos que ela, a Igreja de leigos, se apresenta a veicular e defender.

Assim como está a ser é mais um desastre. Primeiro, os conteúdos. São muitos movimentos, todos defensores do NÃO à lei de despenalização do aborto, pelas razões moralistas as mais rançosas. Católicas, católicos há com boa formação humanista e portadores de sensibilidade, já revelada noutras alturas e a propósito de outras causas humanas, mas que estão ausentes destes movimentos, ou estão presentes, mas, nesta causa, revelam­‑se duma crueldade atroz e duma falta de bom senso e de inteligência pastoral verdadeiramente confrangedoras. A multiplicidade de movimentos é só numérica. Porque a mensagem e a linguagem é sempre a mesma, como numa cassete. No seu espírito de cruzada, não querem saber para nada das mulheres e dos homens de carne e osso que estão do outro lado da barricada, a defender o SIM à Lei de despenalização do aborto. Tratam-nos a todas, todos como assassinos, verdugos, carrascos, os piores terroristas. Em lugar de revelarem capacidade e disponibilidade para dialogar com os do SIM à lei de despenalização, revelam-se obtusos, fanáticos, cruzados, cegos, absolutamente incapazes de se deixar interpelar pelas situações tantas vezes dramáticas das mulheres que um dia se viram obrigadas a abortar. Apresentam-se sobranceiramente como defensoras, defensores da vida, mas logo se percebe que da vida humana quase só conhecem a delas próprias, deles próprios e que mais não é do que a vida dos privilégios e a das mesas fartas, das casas cheias de conforto, com divisões suficientes, comodidades, nível cultural superior, com filhas e filhos na universidade católica ou nos colégios de freiras e de frades, só acessíveis a filhas, filhos de mamã e de papá!

Por favor, senhoras leigas católicas, minhas irmãs, senhores leigos católicos, meus irmãos. As populações em geral estão a ver-vos e a ouvir-vos, nos telejornais, a discorrer sobre estas coisas do aborto e sobre as razões que vos levam a defender o NÃO à lei de despenalização e logo, sem que vós lho mostreis, começam a ver também o outro lado da realidade que é a vossa vida de privilégios. E não podem tomar-vos a sério. Tudo em vós soa a oco, a hipocrisia, a faz-de-conta. Na verdade, sois católicas, católicos de barriga cheia, de privilégios, dotados de capacidade financeira para, nas aflições duma gravidez indesejada, recorrerdes a clínicas privadas clandestinas no país ou, de preferência, no estrangeiro. As populações sabem que é assim, por mais que vós tenteis convencer o país do contrário.

Convido-vos, por isso, a gravar o que dizeis e mostrais nos telejornais (nestes dias até ao dia do referendo a 11 de Fevereiro 2007, vão ser inúmeras, até à náusea, a vossas intervenções!) e a vê-las depois, mas com os olhos das mulheres e dos homens empobrecidos que não dispõem de condições económicas, financeiras e culturais como as vossas. Descobrireis então que o vosso NÃO à Lei de despenalização do aborto (sabei que o NÃO ao aborto toda a gente defende, até as mulheres que alguma vez tiveram de recorrer a ele na clandestinidade e na abortadeira) soa como um insulto aos ouvidos e aos olhos de quem vos ouve e vê nas casas abarracadas, com maridos alcoolizados e filhos na droga.

Digo-vos mais: experimentai entrar nas tascas de bairros degradados à hora dos telejornais onde os vossos gritos mais ou menos histéricos pelo NÃO à lei de despenalização vão aparecer e vede/ouvi as reacções e os comentários das pessoas remediadas e ostracizadas que habitualmente as frequentam. O que elas dizem de vós, é o que dirão da Igreja fanática e sem entranhas de compreensão e de humanidade que vós mostrais por estes dias que são de treva, de muita treva, no nosso país, sobretudo por causa de vós.

Entendo que teria todo o sentido, se vós vos organizásseis em movimentos, independentemente dos bispos católicos portugueses, mas para marcar a diferença em relação a eles. Não para repetirdes, como cassetes, o que eles dizem. Para discursos moralistas e sem entranhas de misericórdia, já existem eles. Mais do mesmo, não, obrigado, minhas irmãs, meus irmãos! Com semelhante postura, o que vós ides conseguir é levar a gritaria a níveis impensáveis e insuportáveis, que acabarão por dar da Igreja católica em Portugal uma imagem desgraçada de intolerância nos antípodas da imagem jesuânica de tolerância que muitas mulheres e muitos homens defensores do SIM à Lei de despenalização do aborto já estão, felizmente, a dar por estes dias, e algumas delas, alguns deles assumidamente ateus!

Pensem nisto que aqui lhes digo. E, se ainda forem capazes, renunciem duma vez por todas à intolerância e digam NÃO ao aborto, como eu também digo, mas digam SIM à Lei de despenalização do aborto, como eu também digo. E, como sabereis, não é por isso que deixo de ser padre/presbítero da Igreja católica que está no Porto.

De resto, se não é para sermos na sociedade campeões de humanidade e de compreensão, para que nos dizemos de Deus? Tenho para mim que o próprio Deus, o de Jesus, se tivesse direito a voto, não hesitaria na escolha a fazer. Entre a actual prática do aborto clandestino, em condições as mais indignas, e a Lei de despenalização do aborto que não obrigará ninguém a abortar, mas que garante condições de dignidade a quem, em consciência, decidir realizá-lo, Deus, o de Jesus, votaria SIM à Lei de despenalização do aborto. Sejamos como Ele. E, depois, tudo façamos, em todos os dias do ano e de cada ano para que nenhuma mulher nossa irmã alguma vez se veja obrigada em consciência a ter de lançar mão da Lei aprovada.

Só a Igreja que agir assim tem a marca do Espírito de Deus e de Jesus. A que não agir assim tem a marca da Intolerância e do Moralismo. E como eu gostaria que todos nós, os que nos dizemos de Jesus, o Cristo, partilhássemos também do seu Espírito! Em lugar de sermos simples correias de transmissão do Moralismo dos fariseus do tempo de Jesus, como, infelizmente e nesta matéria, os Bispos católicos portugueses estão a ser. Para sua vergonha. E para prejuízo da dignidade humana e da liberdade.

4 comentários:

Anónimo disse...

Não sou católica. Como eu haverá muitos. Mas a ouvir padres a falar assim dá vontade de o ser. Obrigada pelas suas palavras, essas sim testemunhos de um grande HUMANISMO. Ana LourenÇo

Anónimo disse...

Olhe, eu era do benfica, mas não me sentia lampião. Não tinha alma benfiquista. Sabe o que é que fiz? mudei de clube. Fui para o Sporting. E sou feliz.

por mirandela disse...

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Anónimo disse...

rABORTAR-DIREITO A DECIDIR.POR FAVOR,LEIAM A BÍBLIA.ÊXODO-CAPÍTULO 21-VERSÍCULOS 22-25.A BÍBLIA CITA CLARAMENTE QUE DEUS PAI TODO PODEROSO,ATRIBUI UM MERO VALOR PECUNIÁRIO AO FETO E DEIXA CLARO QUE A VIDA DA MÃE É MAIS IMPORTANTE!Sou católica e quero ter como meu pai espiritual (PADRE),com a mentalidade igual ao do PADRE MÁRIO OLIVEIRA.Peçamos com toda a humildade ao Senhor Deus Javé (Aquele que É - Aquele que Está),para que Ele faça com que, em todo o mundo,homens e mulheres,em todas as religiões,todos Governos,a Organização Mundial de Saúde,criem condições favoráveis de HIGIENE e MEDICINA LEGAL, para todas as mulheres que queiram abortar por vários motivos. Jesus Cristo, Deus feito Homem, disse:- amai-vos uns aos outros como eu Vos amo. Não estamos neste mundo para condenar ninguém pois somos todos pecadores.Amemo-nos uns aos outros e respeitemo-nos uns aos outros, como irmãos em Cristo Jesus. O Altíssimo é o nosso Protector. Ele perdoa-nos em todas as circunstâncias da vida.Saudações fraternas para todos vós, meus amados irmãos e irmãs em Cristo. Até ao dia 11 de Fevereiro e QUE SE FAÇA A JUSTIÇA DIVINA!